Ainda no caminho das pedras.

Depois de dois dias em Lima, fomos pra Cuzco onde nossa viagem realmente começaria. Uma cidadezinha cheia de charme que em quechua, Cuzco significa “umbigo”. O umbigo do mundo. E geograficamente é o que parece mesmo. Está localizada em um vale  cercada de montanhas. A cidade foi construída pelos incas e posteriormente invadida e saqueada pelos espanhois.  É possível tomar um pisco sour no bar  olhando para  um muro inca. As pedras dessas construções são  perfeitamente encaixadas, evidenciando a genialidade dos arquitetos primitivos que a  inteligência e inventividade não tinham nada de primitivo, mas sim de primordial. Entramos em uma igreja católica, claramente uma herança religiosa espanhola, com um Cristo negro. Achei o máximo. Um país em que os negros quase inexistem,  uma igreja que a imagem de Jesus é negra. No Brasil onde os negros e mulatos sao a maioria nosso Cristo tem olhos azuis. Foi um impacto para mim. Diferente de tudo que já vi. O contato com o povo simples, humilde e extremamente orgulhoso de sua história e suas origens, com um espírito cívico que salta aos olhos foi muito bom. A cidade é limpa, bem cuidada e preservada. As pessoas circulam pelas praças principais e pelas ruas o dia inteiro arrastando mochilas, com mapas na mão, muitas delas a caminho de Machu Pichu, pois é dali que sai o trem para Águas Calientes e, depois, o ônibus (ou van) até cidade sagrada. No caso iniciamos nossa caminhada de quatro dias pelas montanhas, subimos até 4.000 metros. Haja ar! Falta ar!  Pensamentos ficam confusos, nauseas, cansaço, tontura. Muita folha de coca, muito mate de coca para respirar. Ok. Já tinham me dito para “usar e abusar” do tal chá de coca.  Peguei uma xícara daquela água marrom e levei à boca. De pronto senti o cheiro de bosta de cavalo. Eca! Um gole, e o gosto era de bosta de cavalo. Não deu. Não mesmo. E olha que sou boa boca, nada fresquinha em matéria de comida/bebida, mas não suportei aquele chá. O jeito foi mascar a “hoja” mesmo. Começamos a caminhada o guia nos disse que aquela caminhada era considerada caminhada da purificaçao, onde as pessoas nao só buscavam paisagens indescritíveis disponiveis só para os “preparados” , para mim essa preparaçao era mais física que espiritual como preferem os místicos religiosos, mas sim estar em contato com o seu “eu” e com o “superior”.

Olhando aquela trilha de pedras, passando frio, calor, vento cortante, chuva irritante e perigosa, dei um pouco de razao a ele. Melhor momento para refletir nao há. É ali, carregando o peso da mochila que me dei conta do exagero das nossas vidas, percebi que a maioria dos nossos problemas sao irrelevantes, criaçao nossa mesmo. Que carregamos nas costas um peso desnecessario. Vontade louca de jogar fora as camisetas que trouxe a mais, calcinhas que nunca usei, meias que nunca calcei. Por que tanto? Se o principal estava comigo: Disposiçao, saúde e foco.  A companhia das pessoas do meu grupo os bate papos com o Paolo  foi bem legal. Todos do grupo  eram argentinos, cada um com sua historia, sua vida e naquele momento éramos uma familia coesa “andando” atrás do mesmo objetivo. Chegar. Chegar bem. Compartilhar a beleza e espanto de uma cidade construida a quinhentos anos e que até cem anos atrás era  desconhecida. Machu Picchu é realmente um escândalo. Bonita, espantosa, nos faz querer saber mais sobre aquele povo que a construiu em cima das montanhas Cuzco na última noite antes da caminhada.sabe se lá como. Até chegarmos lá, foram quatro dias de “purificaçao”, sofremos avalanche, cansaço, fome, mas os “contos” do guia após o jantar foram inesquecíveis, historia de fantasmas ( essa o Paolo me contou, pois fui dormir antes), dos costumes, da sociedade quechua e  mitologia é o que não falta.  por exemplo falando em bicho, na mitologia andina, os três animais sagrados associados à ligação homem-mundo-divino são a serpente (que representa o mundo subterrâneo e a parte mais profunda do ser), o felino (o puma, que representa a dimensão terra e a sabedoria, ou o mundo intermediário onde vive o homem) e a ave, o condor (que representa a elevação, o espírito, a pureza). Eles estão representados em praticamente tudo que se encontra lá – tecidos, jóias, cerâmica, pinturas. O Condor pra mim é um caso a parte acho o máximo essa ave que é capaz de voas a 5.000 mts de alturas sem mascar uma folhinha de coca. Dizem que é um animal extremamante fiel assim como os pinguins, eles tem uma somente uma companheira para vida inteira e quando ela morre eles se suicidam. Ai que fofo! A comida do cozinheiro do acampamento um caso a parte. Usei e abusei do quinua, do choclo, do kiwuicha. Amei a comida andina, sem aditivos, sem corantes, sem conservantes, tudo proveniente  da terra. A Chincha uma bebida feita de milho e pasmem tem cor vermelha parece vinho. Levo dessa viagem  a melhor das lembranças – o contato com a história e um povo simples e orgulhoso de viver ali. Conhecimento. Muito conhecimento. Cultura – o que não ocupa espaço e faz de nós, pequenos perto de toda aquela grandiosidade, pessoas melhores. É isso! Acho que a tal purificaçao é darmos valor aquilo que nao ocupa espaço. Ah! Tenho tanto pra falar, mas isso deixo pra uma outra vez, depois de  um pisco sour e uma cerveja Cusquenha.

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