Vida e Morte: como explicar esses mistérios

Qualquer coisa que eu escreva aqui de como explicar a morte aos pequenos, eu não fiz, não consegui. Quando meu pai morreu, eu conto aqui: Meu pai. Não expliquei na hora, mas depois aos poucos diante de cada pergunta eu ia respondendo. Meu pai foi o avô mais próximo deles, minha mãe ja havia falecido quando eles nasceram, o pai e a mãe do Paolo moram na Itália, o que significa ver uma vez por ano ou no máximo dois anos. Meu pai dava a eles presentes nada convencionais, mas que eles adoravam e eu me desesperava: martelo, serrote, morsa, alicate tudo de verdade imagine. Toda nota de dois reais que caía na mão dele ele guardava para os netos, quando nós íamos visita-los os meninos iam logo querendo saber quantas notas tinham, poderiam ganhar duas, sete, quatorze ou vinte e duas dependendo de quantas notas de dois reais ele tinha recebido, eles brincavam de adivinhar, era uma festa.

Um livro (ops talvez esse post fosse para amanhã) que acho o máximo e sempre que tenho oportunidade presenteio adultos e crianças que passam por essa situação de perda: Menina Nina – Duas razões pra não chorar do Ziraldo.
Escrito como uma conversa que um adulto às vezes tem que levar com uma criança sobre um assunto tão delicado como a morte, este livro mexe com emoções profundas de adultos e crianças, Ziraldo escreveu esse livro quando sua esposa Vivi morreu dormindo e ele tinha que explicar pra sua neta Nina que a vovó Vivi havia morrido. Nina tem que reaprender a ler a vida sem avó Vivi. Nina tem que reaprender a ser feliz. Lindo, comovente.
Quando Vivi morre ele ilustra a cena com Nina de costas, já vestida em seu pijama, observando a lua, com as mãozinhas para trás. A morte é anunciada pela figura da lua: “E aí teve uma noite/ em que a lua lá no Céu/ cedo se desenhou/ bem clara e redondinha” “E o dia amanheceu mas vovó não apareceu para o café da manhã. Vovó não estava lá para fazer a vitamina que dividia com a Nina. O que houve com a vovó? Meu Deus do Céu, o que houve?” “Vovó Vivi abre a porta! E a Vovó Vivi não responde. ” “Quando a porta do seu quarto foi aberta, finalmente com força e ansiedade, lá dentro, Vovó dormia serena como viveu. Vovó dormia para sempre.” Vovó você nunca disse que queria ir embora assim, sem dizer adeus. Não era isso vovó que estava combinado. Vovó, e suas promessas? Vovó e nossas viagens? Vovó Vovó Vivi e as farras que a gente ia fazer? E a nossa parceria? Vovó e os meus segredos? Pra onde você levou? E como eu vou crescer sem você me ver crescer? Como vou andar no mundo onde você não está? Vovó, eu não posso mais abraçar as suas pernas, não posso beijar seu rosto, não posso pegar sua mão… Vovó, que coisa difícil, Vovó Vivi, que aflição! (ZIRALDO, 2002: 25). Ziraldo apresenta dois motivos para Nina não chorar, sempre respeitando a dor e a crença de quem lê: “Mas espere, Nina, espere, porque há duas razões para você não chorar: Se muito além desse sono que vovó está dormindo não existe nada mais como muita gente crê não existe despertar, nem porto, destino ou luz; se tudo acabou de vez acabou completamente pode ter certeza Nina, a Vovó está em paz; não sabe nem saberá que está dormindo pra sempre. Aí você pode, Nina, ir dormir o seu soninho e sonhar um sonho bom, pois Vovó não está sofrendo. Como não vai acordar seja aqui do nosso lado, seja em outro lugar ela está sonhando, Nina (como sonha toda noite, quem dorme um sono profundo). E então, Vovó vai ver sua netinha crescer nos sonhos de vocês duas. Se, porém depois desse sono imenso, Vovó despertar num outro mundo, feito de luz e de estrelas, veja, Nina que barato!!! Que lindo virar um anjo. Que lindo voar no espaço! E aí, se acreditamos que é desse jeito que as coisas acontecem, depois que a vida na Terra termina, pode ter certeza, Nina: vovó está vendo você. E então, quando você for dormir, dê um adeuzinho pra ela, mesmo que você não possa ver a vovó (é que o céu é muito longe). E de lá onde ela está, Vovó vai ver você crescer do jeito que ela sonhava. (ZIRALDO, 2002:37).

Gente acho lindo esse livro. Recomendo.
Hoje o assunto e vida e morte do blog da Fernanda Reali vai lá e conheça um pouco mais como outras pessoas falam sobre coisas da vida e da morte também.

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10 respostas para Vida e Morte: como explicar esses mistérios

  1. edna reis disse:

    lindo, lindo! quero ler…

  2. Lindooo! eu li este livro na Saraiva e deixei escorrer umas lágrimas, porque é tocante!
    Estou levando o lik.

    beijoooo

  3. vany paulino disse:

    Querida!
    Chorei muito agora com tudo que li… exatamente hoje meu pai faz um ano falecido! Deus disse vinde a mim a criancinhas porque delas é o reino dos céus e ele obedeceu, foi exatamente em um dia tão comemorativo para família (niver de um os netos, não meu filho,sobrinho )e dia das crianças como tem muita criança a comemoração era certa.Hoje 1 ano dele falecido e leio isso agora e não consigo parar de chorar…
    Obrigada por tudo que escreveu pela maneira como escreveu! vou comprar esse livro e presentear meu filho com 7 aninhos que ainda hoje olha para o céu e a maior estrela que vê diz que é seu avó :/

  4. Vanessa disse:

    Diacuy, estive comentando este assunto no blog da Georgia , saia justa , conhece? Ela perdeu a sogra esses das e contou como foi falar sobre o assunto com os filhos. Não conhecia este livro apesar de ser fã do Ziraldo, vou anotar. Obrigada.

  5. Iaci disse:

    Lola, nossa como eu chorei lendo seu post. Acho que vou comprar o livro para mim, para não ficar tão triste pela minha avó que morreu no ano passado. Estou escrevendo e chorando…

    Meus pais e meus sogros são pessoas gracinhas, que querem ajudar e tudo, mas nem se comparam às minhas avós, que eram tão presentes na minha vida que hoje eu sinto que falta um pedaço enorme de mim mesma por uma delas não estar mais aqui! Como eu sinto a falta dela e como eu fico brava por ela ter ido, e ao mesmo tempo grata por ter tido a oportunidade de viver com ela pelo tempo que me foi concedido.

    Engraçado como encontramos na blogosfera pessoas tão parecidas com a gente!

    Bjs
    Ia

  6. nina disse:

    Oi Lolinha!!
    eu tava aqui pensando se já havia lido esse livro, e enquanto lia teu post,entre lágrimas, soube que nao conhecia, porque essas palavras nunca seriam esquecidas. mt lindo isso né? Caramba, as palavras que Ziraldo usa sao perfeitas, cabem perfeitamente na tristeza e na dúvida que cercam a morte. Me levou às lágrimas porque tenho um grande amor por minha vó, que virou anjo há mais de 28 anos e quer saber? Nao existe uma única vez que ao lembrar dela ou falar dela com meus filhos, nao chore. Eu era louca por minha vó, cara, louca mesmo. Ela foi meu primeiro grande amor,Laura minha filha tem esse lindo nome, por causa da bisa. Que pena nao ter tido ninguém pra explicar as coisas pra minha menina Nina aqui,que se sentiu tao vazia sem vovó Laura 😦
    Meu pai tbm já falaceu… mas eu nunca tive dificuldade em explicar a morte aos meus filhos, sabe? Acho esse tema apesar de difícil, é natural, as criancas precisam saber que existe essa falta,né? E que infelizmente, a falta fica pra sempre, é como se faltasse um pedaco da gente, a gente nao fica completa nessa terra, Lola, vao levando pedacinhos da gente devagar, ate que a gente inteiro tbm vá 😦
    acho triste…

    um bj choroso, Lola, vc me emocionou

  7. nina disse:

    lolita, vim mais cedo tentar achar o post que tu mencionou lá comigo, mas nao encontrei, queria ler, me diz onde tá?

    ao mesmo tempo nem foi ruim ficar cacando um post aqui, esse teu blog tá recheado de textos bons, li um bocadao que nao conhecia ainda, tu é uma estrela, escreve mt legal! Ahh, te conheci em algumas fotos, gata!!!!

  8. Cintia Branco disse:

    Lola,

    Não conhecia essa obra, quando meu pai morreu passamos por momentos muito difíceis, eu e meu filhote, na época com 4 anos e o que nos ajudou foi a experiência e os conselhos de uma psicóloga. Hoje ele vê como algo natural, sente saudades mas entende o que houve, na realidade ele ainda lida melhor com a situação do que eu ou qualquer adulto. Vou buscar o livro, talvez me ajude.
    Beijos

  9. zizisantoss disse:

    Diacuy, obrigada pela visita ao meu blog e pela força!
    Sabe, eu fui uma criança chorona, uma adolescente chorona e uma mulher chorona até um certo tempo. Curei minhas lágrimas com uma terapia que durou quatro anos. Hoje estou muito mais serena e equilibrada de minhas lágrimas, mas essa semana não conti o choro quando deparei-me com a perda da minha mãe. Conversei com ela ao chegar e me despedi a minha moda, de uma forma que só ela entenderia. Hoje faz cinco dias de sua ausência e eu já começo a buscar culpas dentro de mim: se eu tivesse feito assim, se eu não tivesse a deixado no hospital, e por aí vão as desculpas quando não podemos prolongar a vida de alguém que amamos. Ela saiu de cena, como todos nós sairemos um dia. Cada um encara a morte de uma maneira, e eu tento encarar com o que sou. Durante as horas do dia, há várias metamorfoses, do sorriso à seriedade, da quietude às lágrimas. Por um tempo será assim, porque um dia todas as dores terminam.
    bjos
    Zizi

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